domingo, 30 de janeiro de 2011

Carta para a minha Mãe.

Angola, 17 de Maio de 2014

  Querida Mãe,

  O tempo de regresso vai longínquo e a Terra Mãe cada vez mais lembrada. Nas encolerizadas primeiras 12 horas do dia, tudo se passa e tudo já se passou neste pequeno grande mundo, onde só o triunfo é oriundo da riqueza suja. A falta de um país... A falta de um país que se instala num não país Mãe. Se estivesses aqui, compreenderias que mesmo um muito pouco país, é sempre melhor que um não país.
  Havias de te orgulhar da tua filha Mãe, que aqui, a pobreza torna-nos ricos. E temo ficar rica, desprovida de anseios opulentos, de egoísmos volúveis e de amores insofríveis, como tu Mãe. O Pai ir-se-ia também orgulhar de mim, a saudade de ambos preenche amargamente os meus dias e a dificuldade deste povo torna o ser num ser pleno.
  Na manhã, às 8 horas dói-me a alma no trânsito interminável, dói-me a visão fatigada da fadiga vulgarizada. Às 21 horas dói-me o peito apertado do ar pesado e insuportavelmente irrespirável dos fumos e dos gases, e os sonhos... Os sonhos que se arrancam da consciência e voam até aos sorrisos do Pai e aos teus jantares do antigamente. De um antigamente tão devaneador e irreal no momento presente.
  Acolá nos meus lençóis acham-se três horas de inconsciência, para amanhã ter dez horas de consciência perturbada e conturbada. Escrever-te-ei para a semana, talvez. Com o tempo de arrefecer o corpo em água morna, que o frio é escasso e quente, abrasador.
  Um beijo com saudades do outro mundo, daquele brilhante, da vossa filha,

  Inês

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A mulher do antigamente.

Outrora no buscar de um rasgo temporal,
Contratempos obsoletos na vida da mulher lívida,
Pois que a liberdade corrompida devida,
Se acha o infausto final.

O término irracional da libertina mulher,
Que cedo termina o ser da sua índole à "cobiça",
Sozinha, escandalosa e sem justiça,
Insípida e nem com gracejo sequer.

Com dote visível logrado,
Assim temem os que foram mas já não o são,
Da sua pura devassa criação,
Do seu fim sentenciado.

Mulher do antigamente destino,
Prostra sua alma, seu desassombro,
Desapossada de ensombro,
Como o confiado adulterino.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Primeiro.

  As pessoas ressentem quando se questiona, quando a questão predomina e insiste em predominar. A primeira vez. E a segunda? Já não importa se à primeira foi questionada. Primeiro julga-se. Primeiro sentenceia-se. Primeiro o desdém. Primeiro a vaidade. Primeiro sempre nós, pois terá sido desta matéria que fomos feitos e refeitos, e moldados para a boa e "sólida" primeira sociedade, que já não deveria ser primeira, mas vigésima ou centésima, acompanhada talvez de uma evolução cortês e delicada, deliciada. Mas claro, ainda antes de nós, primeiro a política, políticos, a infame vara, sinónimos de. E primeiro o sexo, muito primeiro o sexo, intensamente e repetidamente, primeiro o sexo. Porque primeiro, estão os egoístas e os sacanas, como os políticos, ou os inspectores de trabalho, ou simplesmente os que se acham primeiramente acima dos outros. Primeiro o ordenado do fundo desemprego, por favor, primeiro o fundo desemprego, ordenado é para quem trabalha. Por motivos alheios e desusados, motivos dissimulados e dignos de um "Era uma vez...", o primeiro e primeira, primeiros e primeiras, o primeiramente, primário, primários e primárias... Surgem como uma colmatação do inconsciente/consciente reles e funesto.
  Mas claro e claramente, O primeiro, é arrebatador, extasiante e enlevado. Este é o 1.º.